A queda


A queda
Por Stephanie Pereira

Tudo se passa em uma fração de segundo: primeiro o medo. Bom, na verdade, primeiro me veio uma estranha sensação de liberdade e só então o medo. Por fim o silêncio. 
— Você nasceu de novo, não é? — perguntou a enfermeira ao meu lado. 
— Pode ser...
— E é verdade que nessas horas a gente vê um filme da nossa própria vida diante dos olhos?
— Não lembro.
Na verdade, eu lembrava. Na hora tu pensas em tudo: no cachorro vira-lata, no marido trabalhador, na aliança barata, no filho que ainda nem nasceu. Vinte e cinco anos de uma vida mesquinha e cansativa. Cresci em família carente e acredite: ser pobre e preta neste país continua não sendo fácil. Até tentei estudar, mas a vida pareceu me levar para os velhos clichês. Minha mãe é empregada doméstica e sempre foi —  ao menos  desde que me entendo por gente. O resto da história, tu deves imaginar. Com 16 anos, eu já estava trabalhando em casa de família e as perspectivas de qualquer mudança foram sumindo. Não entenda mal, nunca me queixei do meu trabalho, afinal, é tão digno quanto qualquer outro.  Esses dias conheci uma mulher que era formada em administração ou enfermagem, não lembro direito. Recordo que ela fez alguma boa faculdade, mas preferiu trabalhar como doméstica para ganhar um pouco mais, veja só você, que ironia. Mas ali, deitada sobre uma maca e com dores que alcançavam a alma, na minha resposta para a enfermeira resolvi optar  pelo "não lembro". 

Acho que o dia começou como qualquer outro. Aliás, porque começaria diferente? Levantei cedo, preparei o café para meu marido e arrumei minha filha para deixá-la na creche. A pequena só tem sete anos e me esforço todos os dias para que ela tenha o que não tive durante a infância. Pouco depois, meu marido levantou. Moço bom, trabalhador... Jackson é o nome dele. Um dia vai ter sua própria oficina, ao menos é isso que está em nossos planos. Ele aprendeu a ser mecânico com o tio, e a gente passou a morar junto quando eu tinha dezoito anos. Foi difícil no começo, mas com o tempo me acostumei.
— Agora é hora de repensar toda a nossa vida, não é?  —disse meu marido. 

Bobagem, eu já fazia isso antes! Pensar, repensar... Todos os dias eu faço isso. Não é preciso quase morrer para se ter a impressão de que se leva a vida do jeito errado. Vovó dizia que bastava olharmos no espelho todos os dias para sabermos o que fizemos de bom ou de ruim. 
Quando fui até a janela, o sol começava a se por, e a tarde ganhava tons de laranja. Era perto das 18 horas e eu já devia ter terminado todo o serviço. Agora recordo que ainda parei por alguns segundos para olhar a beira-mar e, pela primeira vez em anos, me senti mal por ter me acostumado com a paisagem e não agradecer a Deus todos os dias por morar em um lugar tão bonito. Acho até que pensei que era bom estar viva, lembrei que meu filho chegaria em breve e desejei que a partir de então, tudo fosse diferente. Uma calmaria estranha abraçava minha alma. Não sei se era pressentimento ou algo qualquer desse tipo. Sei que não conseguia sentir medo, mesmo estando num lugar tão alto, sem nenhum equipamento de segurança. Não tinha porquê sentir medo. Nunca tive pavor de altura, nunca senti vertigens, nunca me passou pela cabeça que algo fora do comum pudesse acontecer. 
— O médico  disse que você não vai ter sequelas.

Não vou ter sequelas? E a cabeça como fica? Todos os dias eu acordo pronta pra voltar a dormir. Levanto, lavo o rosto e tento entender todos os sonhos bons da noite que terminou. Tento entender o motivo de eles ainda existirem. Vez ou outra me pergunto se é permitido sonhar, afinal passa o tempo e a impressão que me fica é que essa droga vai continuar uma droga até que eu atinja a overdose. Nunca é fácil levantar da cama, porque isso implica encarar a realidade que os sonhos me pouparam.  Minha patroa, a dona Mercedes, é uma mulher boazinha que só! Esses dias ela me perguntou se eu não pensava em estudar: "Porque tu ainda és jovem e bonita. Se tu quiseres, até ajudo a procurar uma escola". Ela deve pensar que sou uma idiota... É claro que penso em estudar! De vez em quando, como qualquer outra pessoa, também faço planos: arranjar um emprego melhor, ficar bonita, comprar roupas novas para o meu marido. O problema é que sonhar, mesmo que o sonho seja pequeno, tem sido arriscado. Ainda assim, sou teimosa e planejo meu futuro. Sempre acho que amanhã será o dia de mudar de vez, de botar algum dos planos mirabolantes em prática. Embora o amanhã sempre chegue com a velha rotina, esta que só existe para me lembrar que é mais fácil reclamar da vida do que torná-la razoável para se sobreviver.

Mamãe disse que vai arranjar um emprego melhor para mim, "onde eu não precise limpar janelas em andares tão altos". Tudo bem, não é culpa dela. Ela não consegue enxergar o mundo com os meus olhos. Nessas horas peço perdão para Deus e me pergunto se vale mesmo a pena ter sobrevivido. O corpo inteiro dói — dor que atravessa  a garganta e invade a alma. A vida me dói, e a vaga ideia de que exista um paraíso onde as coisas são melhores parece poder aquietar melhor o coração. Morrer não pode ser tão ruim assim. Desculpe, meu Deus, eu não deveria pensar essas coisas. Tu deves estar preparando algo realmente bom pra mim. Afinal, ninguém passa por tudo isso para no final ser infeliz, não é mesmo?

— O médico disse que você vai ficar bem. Foi um milagre! Você lembra de alguma coisa?, perguntou meu marido.
— Acho que desmaiei. Não lembro de nada.
— Tudo bem, não te preocupa. Agora tu precisas descansar. Tu e o bebê.
Na queda, foi tudo muito simples: primeiro senti medo. Na verdade, primeiro senti uma estranha sensação de liberdade, e só então o medo. Despenquei de 10 andares. Disseram-me que sobrevivi por milagre, pois uma árvore amorteceu meu tombo e quase não me feri. É que na hora de falar dos machucados, os últimos vinte e cinco anos não contam — veja só você, que grande ironia.


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Conto feito para aula Redação VI da minha faculdade de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. (12/05/2012)

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